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Tem filmes que a gente assiste e fica três dias processando. Cafarnaum é um deles. Não por ser pesado — e ele é, muito — mas por ser verdadeiro de um jeito que a ficção raramente alcança.

A trama

Zain tem por volta de 12 anos. “Por volta” porque ele mesmo não sabe ao certo: nunca foi registrado, nunca teve uma certidão de nascimento, nunca existiu no papel. Vive amontoado com os pais e os irmãos num cortiço em Beirute, no Líbano, numa família que reproduz a pobreza como quem não conhece outro caminho.

Quando sua irmã mais nova, Sahar — que tem 11 anos e já menstruou, portanto “tá pronta” na lógica brutal da família — é entregue como esposa ao dono do imóvel para quitar dívida de aluguel, Zain explode. Foge. Vai parar na cidade sem dinheiro, sem documentos, sem nada.

Lá, conhece Rahil, uma imigrante etíope indocumentada que cuida sozinha de um bebê chamado Yonas. Quando Rahil é presa pela polícia e desaparece, Zain fica sozinho com o bebê — e tenta, de todas as formas possíveis e impossíveis, manter a criança viva.

Tudo isso é contado em flashback. O ponto de partida do filme é Zain numa cela, sendo ouvido por uma advogada. Ele quer processar os pais por tê-lo trazido ao mundo sem condições de cuidar dele. E o filme é a instrução desse processo.

Os personagens

Zain Al Rafeea — o menino que interpreta Zain — não é ator. É um refugiado sírio que vivia nas ruas de Beirute quando Nadine Labaki o encontrou. Ele mal sabia escrever o próprio nome. A diretora o viu, sentiu que ele era o filme, e filmou. A maioria das cenas foi improvisada.

Isso importa porque explica por que Zain parece real de um jeito que atores treinados raramente conseguem. Não há performance. Há memória muscular de sobrevivência. Aquele olhar de quem já viu demais sem ter escolhido ver.

Rahil (Yordanos Shiferaw) também é não-atriz, também imigrante. O bebê Yonas (Boluwatife Treasure Bankole) foi encontrado através de anúncios em igrejas locais. Toda a produção foi assim: Labaki e sua equipe saíram às ruas de Beirute e trouxeram para dentro do set pessoas cuja vida já era o roteiro.

O efeito é desconcertante. A câmera nunca parece estar filmando — está testemunhando.

A criança que o sistema não vê

Cafarnaum não é um filme sobre pobreza. É um filme sobre invisibilidade. Zain não existe no sistema — e justamente por isso, o sistema não pode protegê-lo, não pode encontrá-lo, não pode responsabilizar quem o prejudica.

A ideia de uma criança de 12 anos processando os próprios pais soa absurda até você assistir ao filme. Depois, parece a única coisa razoável que alguém naquela posição poderia fazer. O absurdo real não é o processo judicial — é o mundo que tornou aquele processo necessário.

Nadine Labaki não explica, não moraliza, não aponta para os vilões. Os pais de Zain não são monstros: são pessoas destruídas por circunstâncias que eles também não escolheram. A crueldade do filme é não ter antagonista claro. O sistema é o antagonista. E o sistema é gente, é política, é descaso, é nós.

Premiado com o Prêmio do Júri em Cannes 2018 — com ovação de 15 minutos em pé — e indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, Cafarnaum foi o tipo de filme que lembra que o cinema pode fazer o que a reportagem não consegue: te obrigar a sentir o que você preferia só saber.

Teoria cafeinada

A cena final me persegue. Depois de tudo — da prisão, da fome, do bebê carregado em carrinho de mercado, da irmã que não pôde salvar — Zain tira a primeira foto oficial da vida dele. Para a carteirinha de identidade. E sorri.

Todo mundo lê esse sorriso como esperança. Eu li diferente.

Aquele sorriso não é sobre o futuro. É sobre o presente. É a primeira vez na vida que um papel vai dizer que ele existe. Que ele tem nome. Que nasceu numa data. Que é uma pessoa.

O sistema que o ignorou por 12 anos, que permitiu que tudo aquilo acontecesse, é o mesmo sistema que agora vai reconhecê-lo. E ele sorri — não pra esse sistema, mas apesar dele. Como quem diz: você demorou, mas eu ainda tô aqui.

É a cena mais devastadora e mais bonita do filme ao mesmo tempo. E acho que é exatamente o que Labaki queria: te partir e te remontar no mesmo frame.

Conclusão ☕

Cafarnaum não é um filme fácil de amar. É duro, lento em alguns momentos, e vai te deixar sem chão. Mas é um dos filmes mais honestos que já assisti — honesto sobre o que a pobreza faz com as pessoas, sobre como a invisibilidade é uma forma de violência, sobre o que significa existir num mundo que não te registrou.

Zain Al Rafeea e sua família foram reassentados na Noruega após o lançamento do filme. O cinema mudou a vida real de alguém. Isso não acontece sempre. Quando acontece, a gente precisa pausar e notar.

Disponível para aluguel no Prime Video, Apple TV e Google Play. Vale cada centavo.

Nota: ☕☕☕☕☕ (5/5)

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