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Tem um tipo de thriller que me irrita mais do que filme ruim: o filme que quase funciona. Que tem premissa boa, elenco decente, fotografia competente — e desperdiça tudo isso num roteiro que resolve o mistério antes de você sequer começar a curtir o jogo.

Blackwater Lane (2024) é exatamente esse tipo de filme.

A trama

Uma noite de tempestade. Uma estrada rural no interior da Inglaterra. Cass (Minka Kelly), professora, está voltando pra casa quando passa por um carro parado no acostamento. Ela vê uma mulher dentro. E não para.

No dia seguinte, descobre que aquela mulher foi assassinada.

A partir daí, Cass começa a desmoronar. Visões da mãe morta. Lapsos de memória. A sensação crescente de que alguém está na mansão medieval onde mora com o marido Matthew (Dermot Mulroney). E uma pergunta que o roteiro não demora nada em responder: ela está ficando louca — ou alguém está fazendo isso com ela?

A premissa é sólida. O livro de B.A. Paris, The Breakdown, que inspirou o filme, tem fãs de verdade. O problema é que a adaptação joga fora exatamente o que faz esse tipo de história funcionar: a dúvida genuína.

Os personagens

Minka Kelly faz o que pode com Cass, e é honesta: ela sustenta o filme em várias cenas onde o roteiro já desistiu dela. Maggie Grace como Rachel, a melhor amiga de infância, tem presença — mas o arco dela vai a lugar tão óbvio que você para de se importar cedo demais.

Dermot Mulroney como Matthew é o personagem mais desperdiçado. Tem potencial pra ser sombrio, ambíguo, perturbador. O filme escolhe não fazer nada disso. Pena.

O grande talento aqui é o elenco. O problema nunca é quem está na tela — é o que o roteiro pede pra eles fazerem.

O que mata o suspense (e não é a chuva)

Thrillers psicológicos vivem de uma coisa: você não saber em quem confiar. Gaslight, A Chave Mestra, Instinto Criminoso — os bons do gênero te mantêm em dúvida até o momento certo.

Blackwater Lane tira essa dúvida rápido demais. As pistas são grossas. Os suspeitos, óbvios. E quando o filme tenta fazer uma cena “impactante”, você já está três passos à frente. A sensação não é de revelação — é de confirmação daquilo que você suspeitou vinte minutos antes.

São 108 minutos numa história que caberia em 85. Cada fade a negro que o filme usa pra tentar criar clima acaba sendo mais um sinal de que a narrativa não tem ritmo próprio. A crítica especializada foi implacável: 10% no Rotten Tomatoes. Eu entendi.

Teoria cafeinada

The Breakdown (livro) tem uma estrutura de narradora não-confiável que funciona porque B.A. Paris conhece o gênero de dentro pra fora. A Cass do livro é genuinamente difícil de ler — você não sabe se acredita nela ou não.

O filme tira a ambiguidade cedo demais, provavelmente porque o estúdio teve medo do público não acompanhar. E essa decisão de tornar o thriller “mais acessível” virou o maior defeito do produto final. Quando você simplifica um thriller psicológico, você mata o thriller — fica só o psicológico sem tensão.

Filmar na Inglaterra foi uma boa escolha: a estética de Suffolk, a mansão medieval, as estradas desertas na chuva — isso tudo funcionou. É irônico que o cenário tenha mais personalidade do que o roteiro.

Conclusão — nota em xícaras ☕

É assistível. Minka Kelly prende a atenção, a fotografia tem seus momentos bonitos, e a premissa chega perto de funcionar antes de se autossabotar. Mas Blackwater Lane é aquele thriller que você termina sem ter sentido nada — nem medo, nem surpresa, nem aquela satisfação de ter sido bem enganada.

Dez por cento no Rotten Tomatoes falam por si. Mas eu me recuso a ser tão implacável: o filme tem intenção. Só não tem coragem.

☕☕ (2/5) — foi na ideia errada com a gente certa.

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