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Existem filmes que te fazem questionar o personagem. As Linhas Tortas de Deus te faz questionar a você mesmo.

Eu fui assistir esperando um thriller de hospital psiquiátrico no estilo europeu — tenso, bem filmado, com aquele ritmo que não te deixa largar. O que não esperava era sair do filme sem ter certeza absolutamente de nada do que tinha visto.

A trama

Alice Gould é uma detetive particular que se interna voluntariamente em um hospital psiquiátrico. A missão: investigar a morte suspeita de um paciente dentro da instituição, a pedido do pai da vítima. Para não levantar suspeitas, ela finge ser paranoica.

Só que o hospital não sabe disso. Os médicos não sabem disso. E, à medida que o filme avança, você também começa a não ter certeza.

É um thriller espanhol de 2022, dirigido por Oriol Paulo — que você talvez conheça de Durante la Tormenta e El Cuerpo, dois filmes que jogam com a percepção do espectador de um jeito parecido. Aqui ele se supera. Baseado no romance clássico de Torcuato Luca de Tena, publicado em 1979, o filme está disponível na Netflix com o título As Linhas Tortas de Deus.

Os personagens

Bárbara Lennie como Alice é uma das melhores atuações que vi nos últimos anos em cinema espanhol. Ela precisa segurar o filme inteiro nas costas, porque é através dela que a gente vê tudo. E a graça — e o tormento — está exatamente nisso: não sabemos se o que ela nos mostra é real ou distorção.

Alice é inteligente, articulada, tem resposta pra tudo. E isso, curiosamente, é o que mais te faz duvidar dela. Pessoas que têm certeza demais sobre a própria lucidez às vezes são exatamente as que precisam de mais atenção.

Eduard Fernández como o Dr. Donadío é o contraponto perfeito: calmo, profissional, nunca hostil. Não é o vilão do hospício que a gente espera. É pior — é alguém que pode estar certo. E Loreto Mauleón, como a paciente que se torna aliada de Alice, entrega uma das presenças mais inquietantes do filme.

A linha que some

O que As Linhas Tortas de Deus faz de mais inteligente não é o twist. É a construção.

O filme te dá evidências em favor de Alice o tempo todo. E ao mesmo tempo te planta pequenas dúvidas, tão sutis que você nem percebe enquanto elas estão chegando. Quando você cai na conta, já estão lá — e não dá pra desmontar.

Tem um detalhe que achei fascinante e que está no bastidor do livro original: Torcuato Luca de Tena, o autor, se internou voluntariamente em um hospital psiquiátrico por 18 dias antes de escrever o romance. Dezoito dias vivendo entre pacientes reais, convivendo com o ambiente, aprendendo a linguagem do lugar. É de lá que vem a autenticidade dos detalhes — a forma como o hospital funciona, como os médicos se relacionam com os internos, como a lógica do lugar tem regras próprias que não são as do mundo de fora.

E isso aparece no filme. A instituição não é caricata. Não é cruel sem motivo. É uma engrenagem que funciona — e que pode tanto te proteger quanto te engolir, dependendo de quem te olha e do que eles decidem ver.

Teoria cafeinada

O filme termina em aberto — diferente do livro, que resolve a ambiguidade. E eu agradeço por isso.

A minha leitura é a seguinte: Alice é, de fato, doente. Mas não no sentido que invalida tudo o que ela fez ou descobriu dentro do hospital.

A paranoia funciona em camadas. Dá pra ser paranoica e ainda assim estar certa sobre determinadas coisas. Dá pra distorcer a realidade em alguns pontos e enxergar com clareza outros. O que o filme sugere — pelo menos pra mim — é que Alice encontrou algo real dentro do hospital, mas a forma como ela processou e organizou esse “real” foi moldada por uma mente que já estava trabalhando fora do padrão.

O final não é “ela estava louca e inventou tudo”. É mais incômodo do que isso. É “algumas coisas aconteceram, outras não, e talvez você nunca saiba separar o quê”.

E essa é a linha torta de Deus do título: a vida não organiza as coisas em ordem. Não existe uma versão limpa da realidade disponível pra todo mundo da mesma forma.

Conclusão — nota em xícaras ☕

Se você curte thriller psicológico europeu que respeita a sua inteligência, esse é o tipo de filme que você vai ficar repassando na cabeça por dias. Não tem resposta fácil, não tem resolução confortável, e não te trata como alguém que precisa ser guiado até a conclusão certa.

Oriol Paulo sabe exatamente o que está fazendo. Bárbara Lennie entrega uma performance que deveria ser muito mais falada do que é. E a premissa — uma detetive que pode ou não estar fingindo a própria loucura — sustenta duas horas de filme sem perder fôlego.

A única ressalva: o ritmo em alguns momentos do segundo ato desacelera demais. Não é fatal, mas você sente.

No geral: vale muito o café.

☕☕☕☕ (4 de 5 xícaras)

As Linhas Tortas de Deus está disponível na Netflix.

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