Cresci ouvindo Michael Jackson dentro de casa não por escolha própria, mas porque minha mãe era fã demais — daquelas que sabiam letra, coreografia e história de cada álbum. Então quando “Michael” chegou nos cinemas, eu já sabia que ia assistir puxada pela nostalgia dela antes de qualquer curiosidade minha. E foi exatamente assim que assisti: com o coração da minha mãe entrando na sala junto comigo.
A trama
Dirigido por Antoine Fuqua, o filme acompanha a ascensão de Michael Jackson desde a infância como vocalista principal do Jackson 5, sob o comando rígido do pai Joe, até a consagração como astro global durante a Bad World Tour, no fim dos anos 80. É a fase “segura” da história: o talento, a fama, a pressão familiar, o nascimento do Rei do Pop. As controvérsias que vieram depois ficam de fora — e isso é uma escolha, não um acidente.
Os personagens
Jaafar Jackson, sobrinho de verdade do Michael, estreia no cinema no papel do tio e é, sem dúvida, o motivo pra assistir. Os passos, os giros, aquele jeito de cantar que parecia impossível de imitar — ele entrega. Salva o filme em vários momentos em que o roteiro patina. Colman Domingo é Joe Jackson, Nia Long é Katherine, e o elenco de irmãos (Jermaine, Marlon, Tito, Jackie) cumpre tabela. Miles Teller aparece como o advogado John Branca, Kendrick Sampson como Quincy Jones, Larenz Tate como Berry Gordy e Kat Graham como Diana Ross — um desfile de nomes conhecidos que às vezes lembra mais um esquete de “quem é quem” da Motown do que uma cena real.
O que faltou (e o que sobrou de bondade demais)
Sabe o que mais senti falta? Da Janet Jackson. Ela não quis participar do projeto e nem apareceu na première — e dá pra sentir esse buraco na tela. Mas o incômodo maior veio de fora das telas: Paris Jackson, filha do Michael, chamou o roteiro publicamente de “cheio de mentiras descaradas”, disse que suas sugestões de mudança foram ignoradas e resumiu o filme como uma “fantasia de Hollywood” feita pra agradar uma fatia de fãs que prefere viver na versão bonitinha da história. E dá pra ver o que ela quis dizer: o Joe Jackson do filme, com Colman Domingo, é bem mais ameno do que o pai que a família Jackson descreveu ao longo dos anos. A dor real vira tensão dramática de cinema — funciona na tela, mas trai um pouco a verdade.
No fim, “Michael” não conta a biografia do Michael Jackson. Conta o show do Michael Jackson. E tem uma diferença enorme entre as duas coisas.
Teoria cafeinada
A Lionsgate já confirmou “Michael 2” — e aqui vai minha aposta: pra um filme que evitou toda a parte pesada dos anos 90 e 2000, a sequência não tem mais pra onde fugir. Se o segundo capítulo vai cobrir justamente a fase mais espinhosa da carreira dele, ou vão continuar filmando em volta do elefante na sala, é a pergunta que decide se “Michael 2” vira o complemento corajoso que este primeiro filme não teve coragem de ser, ou só mais um “greatest hits” bonito de assistir e fácil de esquecer. Prefiro acreditar na primeira opção — mas a Lionsgate já provou aqui que sabe escolher o caminho mais confortável.
Conclusão
Pra quem, como eu, cresceu com saudade de um artista que nunca chegou a ver ao vivo, “Michael” cumpre a função de reviver o mito por duas horas — e isso vale muita coisa. Mas como retrato honesto de uma vida real, ele escorrega. Nota: ☕☕☕½ (3,5/5).
