Tempo de Leitura: 3 minutos

Tem filme que a gente assiste. E tem filme que a gente atravessa. Hokum: O Pesadelo da Bruxa eu vi duas vezes seguidas — sozinha primeiro, de luzes apagadas, e depois com o Diego do lado, só pra ver a cara dele nos mesmos momentos em que a minha travou. Raramente repito um filme de terror na mesma semana. Esse eu queria ficar mais um pouco.

A trama

Ohm Bauman é um escritor de terror que carrega dois lutos ao mesmo tempo: o dos pais, cujas cinzas ele leva para espalhar num hotel isolado no interior da Irlanda, e o de uma infância que ele nunca terminou de processar. O hotel é o mesmo onde os pais passaram a lua de mel — e é também um lugar com história própria, lendas de bruxa, crimes nunca resolvidos, gente do vilarejo que sabe mais do que conta. Quanto mais Ohm fica, mais o hotel para de ser cenário e começa a virar personagem. As memórias voltam do jeito errado, na hora errada, e o luto vira investigação — dele mesmo.

Não vou entregar o que acontece depois, porque a graça de Hokum é exatamente essa: você não sabe se está vendo uma história de fantasma, um estudo de trauma ou os dois ao mesmo tempo — e o filme deixa essa dúvida trabalhar por quase duas horas.

Os personagens

Adam Scott carrega o filme inteiro nas costas e entrega demais. Se você conhece ele do Mark de Ruptura (Severance), sabe do que ele é capaz quando o papel pede alguém partido ao meio por dentro tentando parecer inteiro por fora — e aqui é isso, só que sem escritório e sem chip nenhum cortando a memória por ele. É tudo memória, o tempo inteiro, e Scott segura esse peso com uma economia de gestos que funciona muito melhor do que qualquer grito.

Ao redor dele, o elenco de apoio — Peter Coonan, David Wilmot, Florence Ordesh e companhia — constrói esse vilarejo irlandês como quem já vive ali há gerações: ninguém precisa explicar a lenda da bruxa porque todo mundo na cena já cresceu sabendo dela. Isso dá uma verossimilhança que filme de terror raramente se dá ao trabalho de construir.

O ritmo que ninguém mais tem coragem de usar

Aqui está o motivo real de eu ter visto duas vezes: Hokum não tem pressa. Em 2025 e 2026 a gente se acostumou a filme de terror editado feito reels — take de três segundos, corte, susto, corte, dopamina, próximo. Esse filme te devolve o que o gênero era antes disso: takes longos, composição de cena pensada, câmera que sabe quando ficar parada e deixar o desconforto crescer sozinho. Tem plano ali que é quase uma citação de filmes que moldaram o meu gosto por terror — e não é acidente, é um diretor (Damian McCarthy, o mesmo de Oddity) que claramente estudou o gênero antes de assinar embaixo dele.

Não tem smartphone em cena. Nenhum. E isso muda tudo — a história flutua fora do tempo, podia ser 1998, podia ser agora, e o hotel isolado vira mesmo isolado, sem sinal, sem Google pra resolver o mistério em trinta segundos. Senti a mesma coisa que senti vendo A Chave Mestra pela primeira vez: aquele terror gótico, de casa grande e segredo antigo, que não precisa de jump scare a cada cinco minutos porque confia na própria atmosfera. E tem cena — principalmente as do quarto da lua de mel — que me jogou direto pra sensação de 1408, aquele terror que é sobre o espaço fechado virando a própria mente da pessoa.

É um filme que respeita quem ainda gosta de sentir medo devagar. Não é perfeito — tem um ou outro momento no meio do segundo ato que estica mais do que precisava, e a resolução podia ter cortado uns dois minutos de explicação — mas errar por querer construir demais é um erro que eu perdoo fácil, principalmente quando o resto é tão bem calibrado.

Teoria cafeinada

Minha teoria, depois de ver duas vezes: a bruxa do hotel não é sobre o hotel. Ela é a forma que o filme encontrou de dar corpo pro trauma de infância do Ohm — cada aparição dela acontece exatamente quando ele está mais perto de lembrar algo que preferia não lembrar. Não é coincidência que os crimes “não resolvidos” do vilarejo ecoem, ponto por ponto, algo que aconteceu na família dele antes da história começar. O filme não te entrega isso mastigado, mas monta um espelho entre o passado do lugar e o passado do personagem cena por cena. Pra mim, Hokum não é sobre uma bruxa assombrando um hotel. É sobre um homem que precisou viajar até o fim do mundo pra finalmente deixar alguma coisa dentro dele morrer de vez — e a bruxa é só a forma mais bonita e mais assustadora que o roteiro achou de mostrar isso.

Conclusão

Não é um filme perfeito. É um filme com coragem — coragem de ir devagar, de confiar na atmosfera, de deixar o público desconfortável sem precisar gritar pra isso. Eu vi duas vezes na mesma semana e voltaria pra uma terceira. Isso já diz o suficiente.

Nota: ☕☕☕☕½ (4,5/5 xícaras)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *