
Tem review que a gente escreve com calma. Essa não. Terminei “O Morro dos Ventos Uivantes” com uma raiva que não sentia desde… nem lembro. A capa prometia que tinham entendido a essência do livro. Não entenderam. Destruíram.
A trama
Catherine Earnshaw e Heathcliff crescem juntos nas charnecas de Yorkshire, presos numa paixão que não cabe em casamento, classe social ou bom senso nenhum. O livro de Emily Brontë atravessa duas gerações: a autodestruição de Cathy e Heathcliff primeiro, e depois a tentativa dos filhos deles de consertar o que os pais quebraram. A versão de Emerald Fennell, com Margot Robbie e Jacob Elordi, fica só na primeira metade. Termina exatamente onde a histeria acaba e a redenção começaria — e faz isso por escolha, não por limitação de tempo. O filme já tem 2h15.
Os personagens
Robbie e Elordi entregam o que dá pra entregar — os dois são bons atores. Mas a química entre eles nunca convence como a paixão avassaladora que o livro descreve; fica mais pose de ensaio fotográfico do que fogo de verdade. E tem um problema que pesa mais que falta de química: no romance, Heathcliff é descrito como um estranho, provavelmente não-branco, um forasteiro que nunca é aceito por causa disso — isso é parte do que faz ele ser Heathcliff. O filme apaga essa camada inteira. Sobra um bad boy bonito e raivoso, sem o motivo real da raiva dele.
Da página pra tela: o que sumiu
Aqui a decepção vira raiva de verdade. O livro de Brontë é ódio e amor andando de mãos dadas, decadência, gente se destruindo em nome de um amor que não sabe ser gentil. Fennell filma tudo isso como editorial de moda: piso vermelho acrílico, vestidos de tapete vermelho, uma cena de “quarto de pele” montada com still do corpo da própria Margot. É bonito, sem dúvida. Mas é bonito do jeito que 50 Tons de Cinza é bonito — estética no lugar de profundidade. A segunda metade do livro, a única parte que realmente perdoa alguém, a única parte que dá sentido a todo aquele sofrimento, não existe nessa adaptação. Cortaram o remédio e ficaram só com o veneno, embalado em grife.
Teoria cafeinada
Minha teoria: Fennell passou a chamar o próprio filme de “Wuthering Heights” entre aspas nas entrevistas de propósito — não é modéstia, é blindagem. Ela sabia que ia cortar a metade que redime a história e preferiu isso a fazer um filme sobre cura. Faz sentido do ponto de vista comercial: paixão destrutiva vende trailer, vende vestido rasgado na charneca, vende temporada de prêmio de figurino. Redenção geracional não vende manchete. O filme não fracassou tentando adaptar o livro — ele nunca tentou. E isso é pior do que uma adaptação ruim: é um clássico usado de pretexto pra sessão de fotos.
Conclusão
Nota: ☕ (0 de 5). E não é sobre atuação ruim — Robbie e Elordi fazem a parte deles. É sobre pegar uma das histórias mais violentas e verdadeiras da literatura inglesa e transformar em campanha publicitária. Vou assistir a versão original em breve pra comparar com essa aqui. Se a diferença for do tamanho que eu imagino, tem post comparativo vindo por aí.
