
Tem filme de terror que usa o brinquedo amaldiçoado só de desculpa. Obsessão não. Assisti esperando mais um “monkey’s paw” reciclado e saí com aquela sensação incômoda de quem reconheceu gente que conhece na tela — e não é a Nikki que eu tô falando.
A trama
Bear Bailey (Michael Johnston) é funcionário de loja de discos, romântico incurável, apaixonado pela melhor amiga de infância desde sempre. Numa loja de antiguidades ele encontra o One Wish Willow, um brinquedo que promete realizar um desejo quando quebrado. Bear pede o óbvio: que Nikki (Inde Navarrette) o amasse mais que tudo no mundo. O desejo é atendido na hora. O problema é que “amar mais que tudo” vira, literalmente, apagar tudo o que não é Bear — e o filme passa a hora e quarenta seguintes mostrando o preço disso.
Os personagens
Michael Johnston segura o Bear como um cara comum demais pro próprio bem — não tem nada de herói nele, só um sujeito que nunca aprendeu a aceitar um não. É Inde Navarrette quem rouba o filme: a Nikki pré-desejo e a “Nikki” pós-desejo são quase duas atrizes diferentes, com uma virada vocal e física que já está sendo comparada ao hall da fama das vilãs de terror. Cooper Tomlinson, Megan Lawless e Andy Richter completam o elenco de apoio — e existem, basicamente, pra lembrar você de que desejo tem custo colateral.
O vilão de verdade
Isso aqui é o que separa Obsessão de qualquer terror de brinquedo amaldiçoado batido. O próprio diretor Curry Barker já disse em entrevista: o One Wish Willow não é amaldiçoado. Amaldiçoado é o desejo. Querer o amor de alguém à força, tirar a autonomia de uma pessoa até ela deixar de ser ela mesma — essa é a maldição inteira. Bear não é vítima de artefato sobrenatural nenhum. Ele é autor da própria desgraça, e o filme te deixa torcer pelo mocinho errado por tempo suficiente pra doer quando cai a ficha. O monstro nunca foi o brinquedo. Foi ele o tempo todo.
Teoria cafeinada
Minha teoria é que a Nikki nunca foi “possuída” no sentido clássico de terror — ela foi apagada. O pedido de Bear não convocou nenhum espírito estranho, ele reescreveu quem ela era pra caber no molde do desejo dele. Por isso, quando Bear morre e a maldição quebra, ela “acorda” perdida, cercada de corpos, sem lembrar nada: porque a Nikki de verdade estava lá o tempo inteiro, só trancada no porão da própria cabeça, assistindo. Terror de possessão normalmente é sobre algo de fora tomando conta de alguém. Aqui é sobre alguém de dentro sendo apagada pra caber no que o outro queria que ela fosse. É monkey’s paw disfarçado de comédia romântica adolescente — e é bem mais assustador assim.
Conclusão
Feito com 750 mil dólares e já ultrapassando 370 milhões em bilheteria mundial — passando A Bruxa de Blair na lista dos terrores mais lucrativos da história —, Obsessão prova que orçamento nunca foi desculpa pra filme ruim. 96% no Rotten Tomatoes, atuação de Inde Navarrette que sozinha já vale o ingresso, e uma mensagem incômoda escondida debaixo do sangue: o monstro raramente é o objeto amaldiçoado. Quase sempre é a pessoa que não sabe aceitar um não.
Nota: ☕☕☕☕ (4/5)
