
Tá bom, eu precisava falar sobre isso. Maratonei a segunda temporada de Devil May Cry na Netflix no fim de semana passado e fiquei literalmente na cama me recuperando de sentimentos que eu não estava preparada pra ter com um anime sobre caçador de demônios.
Porque sim, na superfície é aquele bagulho estiloso de sempre: Dante com a espada gigante, demônios explodindo, referências ao game que todo mundo ama. Mas debaixo dessa casca de ação com atitude, a segunda temporada foi fundo numa coisa que eu não esperava: trauma de abandono. E fez isso de um jeito tão bem construído que eu me peguei pausando o episódio pra processar.
A trama
A gente retoma logo depois dos eventos da primeira temporada. A guerra entre humanos e demônios está escalando, DARKCOM continua o seu projeto de dominar o Makai, e Dante se vê cara a cara com alguém que não via há anos: Vergil, o irmão gêmeo que desapareceu quando eram crianças.
Ao longo dos 8 episódios (todos disponíveis de uma vez, obrigada Netflix), a série vai costurando a história do presente com flashbacks do passado. Quem era Sparda, o pai deles? Por que ele foi para o mundo humano? Por que ele abandonou os filhos? Essas perguntas movem a temporada do começo ao fim, e as respostas chegam aos poucos, cada uma pesando mais do que a anterior.
Tem uma revelação sobre o pai de Lady que simplesmente me fez gritar no sofá. Não vou entregar aqui porque isso tem que ser vivenciado do jeito certo.
Os personagens
Dante continua sendo o coração da série, mas dessa vez com muito mais profundidade. A gente entende que todo aquele humor ácido, toda aquela confiança exagerada, é um mecanismo de defesa. Ele usa piadas pra não ter que sentir as coisas. Johnny Yong Bosch entrega uma performance incrível.
Vergil é a revelação da temporada. Robbie Daymond consegue fazer dele uma presença ameaçadora e vulnerável ao mesmo tempo. O arco do Vergil é sobre o que acontece quando você suprime tudo por tempo demais, quando você troca sentimentos por poder como estratégia de sobrevivência. E aí você vê de onde isso veio, e você entende. Não concorda, mas entende.
Lady (Scout Taylor-Compton) ganha mais espaço, e a relação dela com Dante fica tensa de um jeito novo. Ela descobre coisas sobre o próprio pai que redefinem tudo o que ela pensava saber sobre si mesma.
A estética do caos (com um coração dentro)
O Studio Mir melhorou consideravelmente em relação à primeira temporada. O CGI está muito mais integrado ao traçado à mão, e as cenas de ação têm uma fluidez absurda. Quando Dante e Vergil finalmente se enfrentam de verdade, é o tipo de cena que você assiste duas vezes: não por confusão, mas por puro prazer visual.
O que me pegou mesmo foi a curadoria musical de Adi Shankar. Ele coloca Sk8er Boi da Avril Lavigne numa cena de transformação de personagem. Usa Let the Bodies Hit the Floor do Drowning Pool durante um flashback traumático. E funciona. Funciona demais. É aquele tipo de escolha ousada que ou afunda ou voa e aqui ele voou com estilo.
Teoria cafeinada
A temporada revela que Sparda teve um grande conflito com Mundus antes de ir para o mundo humano. E aí fica a pergunta que ficou ecoando na minha cabeça: e se a Season 3 contar exatamente essa guerra?
Temos o Makai, temos Mundus como ameaça central ainda em pé, temos toda a política interna do mundo demoníaco que a série ainda mal arranha. Uma temporada que expanda o Makai, mostrando quem eram os aliados de Sparda, quem traiu quem e como isso ecoou até Dante e Vergil, seria uma construção de lore extraordinária.
Minha aposta: Season 3 mergulha fundo no Makai com Vergil como perspectiva central, e aí a gente finalmente entende de vez por que esse irmão virou o que virou.
Conclusão
Eu entrei esperando mais ação estilosa e saí tendo processado coisas sobre ausência paterna e traumas de infância que definitivamente não estavam no roteiro da minha tarde de domingo.
Devil May Cry T2 é uma melhoria genuína em relação à primeira temporada. É mais sombria, mais emocional, mais corajosa nas escolhas. Se você deixou pra ver quando der, esse momento é agora. São 8 episódios de 35 minutos cada — dá pra maratonar numa tarde, se você estiver disposto a viver em silêncio existencial depois.
☕☕☕☕ (4 xícaras em 5)
Uma xícara a menos porque alguns momentos da metade ainda pecam no ritmo, atropelando revelações que mereciam mais espaço pra respirar. Mas no geral? Muito bem, Adi Shankar. Muito bem.
