Poster do filme Maudie (2017)
Tempo de Leitura: 2 minutos

Tem filmes que você termina e fica um tempo em silêncio, olhando pro teto. Maudie é um desses.

Eu não sabia muito sobre Maud Lewis antes de assistir. Achei na Netflix sem querer, vi “Sally Hawkins”, lembrei da performance dela em A Forma da Água, e coloquei. Que erro teria sido pular esse filme.

A trama

Maud Lewis viveu no começo do século XX em Nova Scotia, no Canadá. Artrite reumatoide severa desde criança — os dedos retorcidos, o corpo encolhido, os movimentos difíceis. A família a tratava como um fardo. Então ela foge de casa à sua maneira: responde a um anúncio de um homem recluso chamado Everett Lewis, que precisa de uma empregada doméstica.

Everett é tosco, fechado, quase cruel nas primeiras cenas. Não tem nada de romântico naquele arranjo. Maudie limpa, cozinha, dorme num cantinho. Mas ela pinta. Pinta a casinha de madeira, pinta cartões postais, pinta o mundo inteiro com flores, gatos pretos e paisagens nevadas de Nova Scotia.

E aí, devagarzinho, o mundo começa a prestar atenção.

Os personagens

Sally Hawkins entrega uma das atuações mais delicadas que já vi. Ela não está fazendo Maud Lewis “inspiradora” ou “corajosa” no sentido de filme hollywoodiano — ela está sendo uma mulher que simplesmente não parou de viver. Tem um sorriso no rosto da Maudie que aparece nas piores cenas e ele não é negação. É escolha.

Ethan Hawke como Everett Lewis é desconfortável da melhor forma. Ele não é o vilão. Não é o herói. É um homem difícil que aprendeu a amar de um jeito diferente, e o filme não tenta amaciá-lo pra ser mais palatável. Essa honestidade sobre ele é o que faz o casal funcionar.

A arte como resistência silenciosa

Maud não pintava pra protestar. Não pintava pra provar nada a ninguém. Ela pintava porque era o jeito dela de estar no mundo. Essa distinção importa.

O filme entende que arte — especialmente a arte popular, a arte feita por quem a academia nunca olhou — é política sem panfleto. Maud Lewis vendeu obras por centavos durante a vida. Depois da sua morte, pinturas dela foram leiloadas por dezenas de milhares de dólares. A casinha mínima onde ela morou e pintou cada centímetro? Está no museu.

Não tem ironia aí. Tem apenas a verdade de como o mundo funciona com os artistas enquanto eles vivem.

Teoria cafeinada

Maudie é um filme sobre as condições que nos damos pra viver. Everett achou que estava comprando uma empregada. Maudie achou que estava pedindo um teto. Os dois saíram com algo que não tinha nome nem no começo do filme.

Eu fico pensando: e se Maudie tivesse nascido em outro corpo, outro contexto, outro século? Com saúde, reconhecimento, espaço? Ela teria pintado as mesmas flores? Ou a arte dela era, em partes, filha exata daquela vida apertada, naquela casa minúscula, naqueles dedos que mal dobravam?

Tem coisas que só nascem do limite. É uma ideia perturbadora e linda ao mesmo tempo.

Conclusão

Maudie não é um filme fácil de amar. É lento, dolorido, honesto demais pra dar finais bonitos. Mas é exatamente por isso que ele fica.

Sally Hawkins deveria ter ganho o Oscar. Ponto.

Se você tiver tarde de domingo, uma xícara boa de café e disposição pra sair um pouco diferente do que entrou — esse filme é pra você.

Nota: ☕☕☕☕☕ (5/5)


Maudie (2017) — Direção: Aisling Walsh. Roteiro: Sherry White. Elenco: Sally Hawkins, Ethan Hawke. Disponível na Netflix.

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