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Tinha sete anos que eu esperava entender o que aquela série queria dizer. Sete anos de espera entre temporadas, de especiais de pandemia, de tragédias reais dentro do elenco, de um showrunner que sempre deu a sensação de estar fazendo a série que ele queria — não necessariamente a que você precisava. E mesmo assim, quando Euphoria encerrou em junho de 2026, fui pega de surpresa. Não pelo final em si. Mas pelo quanto ainda me importei.

A trama

Euphoria estreou em junho de 2019 na HBO e chegou como um soco sem aviso. Criada por Sam Levinson a partir de uma minissérie israelense de 2012, a série acompanha Rue Bennett (Zendaya), uma adolescente que voltou da reabilitação depois de uma overdose e narra a própria história com a distância de quem sabe que o fim está vindo.

Em torno dela: Jules (Hunter Schafer), garota trans que acabou de mudar de cidade e que representa a primeira pessoa que faz Rue querer ficar sóbria por alguém além de si mesma. Nate (Jacob Elordi), o atleta construído sobre mentiras. Cassie (Sydney Sweeney), bonita e destruída por dentro. Maddy, Kat, Fez — cada um carregando um peso diferente, mas todos afundando na mesma maré.

A primeira temporada (2019, 8 episódios) apresentou o mundo. A segunda (2022, depois de uma pausa pandêmica) aprofundou os ferimentos. A terceira (2026) pulou cinco anos no tempo, encontrou os personagens na vida adulta e tentou mostrar o que acontece quando o colégio acaba — mas a realidade não melhora.

Os personagens

Zendaya não interpreta Rue. Ela habita. É aquele tipo de atuação que você assiste e sente vergonha de ter subestimado a atriz. Na T1 a Rue é desesperançada. Na T2 é raivosamente autodestrutiva. Na T3 é alguém que não sabe mais por que deveria continuar tentando — e o rosto de Zendaya carrega tudo isso sem precisar de uma linha de diálogo sequer.

Hunter Schafer como Jules é a outra metade emocional da série. O relacionamento das duas — caótico, codependente, lindo e tóxico em medidas iguais — é o coração que pulsa sob todo o resto. Sydney Sweeney transformou Cassie num estudo de caso sobre o que acontece quando o mundo te vê como corpo e você começa a acreditar nisso. Jacob Elordi como Nate é o tipo de personagem que você odeia da maneira que só a TV boa consegue fazer você odiar alguém.

Colman Domingo como Ali — o mentor de Rue nas reuniões de NA — é o contraponto moral que a série precisava para não virar exploração pura. E Fez, interpretado por Angus Cloud, que faleceu em 2023, merece menção especial: ele era o coração gentil num show que raramente parou para respirar. Na T3, o personagem aparece preso por 30 anos — e a ausência real de Angus Cloud pesa mais do que qualquer decisão de roteiro.

A estética como linguagem

Euphoria foi a série que fez uma geração inteira sentir que havia uma obra que enxergava o mundo exatamente como elas enxergavam — com saturação de cor, lentidão proposital, nudez sem sexualização, e uma trilha sonora que entendia o que significava ter 17 anos no final dos anos 2010.

Labrinth compôs as primeiras temporadas com algo que parecia sair de dentro dos personagens. A música não ilustrava a cena — ela participava dela. A T3 trocou por Hans Zimmer, que trouxe grandiosidade cinematográfica. É tecnicamente lindo. Mas diferente — e essa é a síntese da terceira temporada inteira: impecável na forma, distante no afeto.

Filmada em 35mm e 65mm pela primeira vez na história das séries de TV em larga escala, a T3 parece um filme. Às vezes parece tanto um filme que esquece que ainda é uma série com personagens que construiu ao longo de sete anos e que merecem mais do que enquadramentos perfeitos.

Teoria cafeinada

Desde a primeira temporada, me bate uma sensação que nunca foi embora: Rue sempre estava narrando do futuro. Ela conta a história com a leveza de quem sobreviveu — ou a melancolia de quem não sobreviveu.

A T3 confirmou a segunda opção. Rue morre no episódio final, intoxicada com fentanil disfarçado de Percocet — um acerto de contas que ela mesma ajudou a construir ao longo da temporada. O episódio final tem 93 minutos, o mais longo da história da HBO, e mesmo assim a morte de Rue chega antes da metade.

Minha leitura: a morte não foi o fim da série. Foi a prova de que Sam Levinson estava escrevendo sobre suicídio em câmera lenta desde o começo. Toda a narrativa de Euphoria é Rue tentando nos convencer de que existe uma chance de ela ser diferente. A cada temporada, você acredita um pouco menos — e ela também. Não é uma história sobre drogas. É sobre alguém que nunca acreditou que merecia ficar. E isso é uma das coisas mais honestas que já vi numa tela.

Conclusão — ☕☕☕½ (3,5/5)

Euphoria é impossível de ignorar e impossível de amar completamente. A T1 chegou como uma revelação. A T2 foi intensa, irregular, brilhante em partes e excessiva em outras. A T3 tentou crescer e perdeu parte do que a tornava única — o salto temporal tirou o colégio do centro, e o colégio era o que segurava tudo junto.

O final com a morte de Rue é corajoso, mas apressado. A série encerrou em 1º de junho de 2026 com um gosto que demora para ir embora.

Não é a melhor série que já assisti. Mas é uma das que ficou. E vai ficar por um bom tempo.

☕☕☕½ (3,5 de 5 xícaras)

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