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A espera foi longa. Quando o James Gunn anunciou que o DCU ia recomeçar do zero, a primeira pergunta que me fiz foi: quem? Aí vieram os nomes — David Corenswet como Superman, Milly Alcock como Supergirl. O Superman eu conseguia imaginar. A Supergirl… foi quando vi a Milly em outros trabalhos e pensei: esse casting é bravo. Bravo de verdade.

Fui ao cinema na sexta à noite com o Diego. A expectativa estava alta — talvez alta demais. Saímos conversando sobre o filme por mais tempo do que costuma ser necessário quando a gente gosta muito de algo.

A trama

Kara Zor-El não cresceu na Terra como o primo. Ela foi criada em Argo City — um fragmento sobrevivente de Krypton à deriva no espaço. Enquanto o Kal-El foi adotado por uma família de fazendeiros do Kansas e cresceu com otimismo e princípios, a Kara cresceu assistindo à morte de todo mundo que amava. Chegou à Terra já quebrada, já com raiva, sem paciência para o sorriso eterno do Superman.

Para celebrar seu 23º aniversário, ela sai pelo universo com Krypto, viajando para planetas com sol vermelho onde seus poderes ficam suprimidos — porque às vezes o que ela quer é só sentir o que é ser normal por uma noite. É nessa viagem que ela encontra Ruthye Marye Knoll, uma garota alienígena que quer matar o homem que assassinou o pai dela: Krem of the Yellow Hills. Krem faz algo que torna o caso pessoal para Kara. E aí começa uma jornada interestelar onde a pergunta central é: vingança e justiça são a mesma coisa?

Premissa excelente. Baseada na HQ do Tom King, considerada um dos melhores arcos da Supergirl nos quadrinhos. O problema não é de onde o filme veio — é o que o roteiro faz com esse material depois.

Os personagens

A Milly Alcock entrega a melhor Supergirl que já apareceu em tela. Ponto. A Kara dela é dura, sarcástica, impulsiva, cheia de trauma e — aos poucos, quase sem querer — cheia de algo que começa a parecer justiça. Ela não é a prima simpática do Superman. É o oposto: é quem sobreviveu a algo que ele nunca precisou enfrentar. Milly carrega isso no rosto, na postura, no jeito que olha pras pessoas com cansaço e desconfiança. É uma performance que merecia um roteiro melhor.

Jason Momoa como Lobo é a surpresa boa do filme. O personagem parece costurado para ele — bruto, engraçado, amoralmente consistente. Toda cena em que ele aparece ganha textura que o resto do filme não tem. A plateia ria, o Diego ria. Funciona.

Eve Ridley como Ruthye funciona como âncora emocional — é ela quem narra, quem observa Kara com olhos que ainda acreditam em heroísmo. A dinâmica entre as duas poderia ser muito mais rica se o roteiro deixasse espaço pra isso respirar.

O kriptonita mora no roteiro

A HQ do Tom King é sobre o custo psicológico da vingança. Sobre o que acontece com quem carrega ódio por tempo demais. Sobre a diferença entre fazer justiça e fazer o ciclo girar. É um material denso, poético, sobre heroísmo sem pompa.

O roteiro pega essa espinha dorsal e a troca por sequências de ação e needle drops. É o problema que a crítica apontou com razão: o filme soa como um Guardiões da Galáxia de segunda linha, com trilha sonora determinando emoção em cenas que deveriam sustentar esse peso por conta própria. Craig Gillespie dirige com competência, sem identidade. É funcional. Nunca é memorável.

O que mais dói é saber que a matéria-prima estava ali. A Kara de Milly Alcock é capaz de carregar a profundidade do material original. O filme simplesmente não confia nela para fazer isso.

Teoria cafeinada

O Rotten Tomatoes dos críticos ficou em 57% — mas o público foi para 77%. Essa diferença não é coincidência.

Quem foi ao cinema já fã da Kara, já tendo lido a HQ ou acompanhado o DCU desde o Superman, saiu satisfeito o suficiente porque viu uma Supergirl que finalmente faz sentido. Os críticos que esperavam profundidade narrativa — e tinham razão de esperar, dado o material base — saíram frustrados com o que o roteiro desperdiçou.

Acho que é exatamente o que o James Gunn está fazendo: construindo personagens fortes o suficiente para sobreviver a filmes medianos. O Superman (David Corenswet aparece em cameo) e a Supergirl já têm dinâmica estabelecida. Lobo já tem fã-clube. A Kara de Milly vai chegar num roteiro à sua altura em algum momento. Só não foi agora.

Conclusão — nota em xícaras ☕

Supergirl: Woman of Tomorrow é um filme que eu assisti esperando ser surpreendida e saí com a sensação de “era isso?”. Não decepcionada com a Kara — a Milly Alcock é perfeita e é impossível não torcer por ela. Decepcionada com o que construíram ao redor dela.

Vale ver? Vale. Não vai mudar sua vida, mas você vai sair querendo mais dessa Supergirl — o que, no fundo, talvez seja exatamente o que a DC queria.

☕☕☕ (3 de 5 xícaras)

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