
Toy Story 5 saiu. Eu fui. Eu chorei. E quando saí do cinema, fiquei me perguntando quanto tempo a Bonnie tinha ficado olhando pro celular enquanto eu estava sentada na poltrona vibrando com a história da Jessie. Essa ironia não é acidente — a Pixar calculou cada milímetro disso.
A trama
Bonnie ganhou um tablet. Não qualquer tablet — um chamado Lilypad, a Lily, com IA suficiente pra mandar mensagem pra colegas de escola e resolver o problema de uma criança tímida que não sabe como fazer amizades. Parece útil. Parece até boazinha. E aí começa o problema.
Porque quando a Lily resolve o problema social da Bonnie, os brinquedos deixam de ser necessários. Jessie — que desde a saída do Woody assumiu o papel de xerife do quarto — assiste, impotente, a criança que ela ama trocando a brincadeira por uma tela. O Woody volta de suas aventuras com a Bo Peep achando que vai ajudar. E aí as coisas complicam de formas que a franquia nunca tinha ido antes.
Tem um trecho em que Jessie vai parar no galpão dos brinquedos esquecidos — junto com um treinador de vasos sanitários chamado Smarty Pants, que é ao mesmo tempo hilário e devastador — e a cena funciona como espelho direto do público adulto na sala. Todos nós já fomos a Bonnie. Todos nós um dia paramos de brincar.
Os personagens
Joan Cusack carrega o filme inteiro nas costas e faz parecer leve. Jessie finalmente tem sua história — não como apêndice emocional do Woody, não como namorada do Buzz, mas como protagonista completa com arco próprio, medo, falha e virada. Demorou 27 anos desde Toy Story 2 (1999), mas chegou.
O Woody e o Buzz aparecem. Tom Hanks e Tim Allen de volta. Mas a Pixar foi honesta: eles estão em segundo plano, e isso é a decisão certa. O filme não precisava deles como crachá — precisava deles como suporte emocional pra Jessie, e é exatamente o que acontece.
A Greta Lee como Lilypad é a grande surpresa. Ela faz a vilã sem fazer a vilã — a Lily não é malvada, é eficiente. E eficiente demais é uma forma muito mais perturbadora de ameaça.
Bad Bunny aparece num papel menor que eu não vou spoilar, mas funciona. A Taylor Swift entrou só pela música — “I Knew It, I Knew You”, co-escrita com o Jack Antonoff — e é uma dessas músicas que você não percebe que entrou na sua cabeça até tá cantarolando no supermercado três dias depois. O Diego ficou bravo comigo quando eu disse que ela foi a parte mais irritantemente boa do filme. Ele vai ter que concordar.
Brincar está desaparecendo e a Pixar está gritando isso
Essa é a seção onde eu preciso ser honesta: esse filme é uma carta de amor à brincadeira analógica escrita por um estúdio que existe graças à tecnologia digital. A ironia não passa batida — e o próprio filme parece saber disso, porque não demoniza a tecnologia. A Lily não é o Lotso nem o Stinky Pete. Ela é o presente de Natal que os pais compraram com boa intenção e que acabou substituindo algo insubstituível.
A Pixar já falou sobre abandono (Toy Story 1), sobre crescer (Toy Story 3), sobre o vazio depois da transição (Toy Story 4). Agora fala sobre a extinção da brincadeira como hábito. Sobre crianças que param de imaginar porque têm conteúdo pra consumir. Sobre brinquedos em prateleiras sem mãos que os movam.
É a história mais adulta da franquia disfarçada de aventura infantil. Funciona nos dois registros. Isso é a Pixar no auge.
Teoria cafeinada
A Lily manda uma mensagem pra Chelsea em nome da Bonnie. A Bonnie faz uma amizade real. Mas a amizade começa por uma mentira digital — a Lily fingiu ser mais sociável do que a Bonnie conseguia ser sozinha.
Minha teoria: no fundo, a Lily não é o problema. Ela é o sintoma. O problema é um mundo que exige que as crianças socializem de formas que não combinam com elas, e a tecnologia encontrou um atalho. A Pixar mostra isso como tragédia, mas talvez o verdadeiro arco não terminado seja: e se a Bonnie precisasse tanto de ajuda real, e não apenas de um brinquedo que voltasse a brincar com ela?
Fica a pergunta. O filme não responde. Eu acho que foi de propósito.
Conclusão — nota em xícaras
Toy Story 5 é o filme que eu não sabia que queria ver quando entrei na sala e o filme que eu não consegui parar de pensar depois que saí. Não é perfeito — tem um segundo ato que perde um pouco de ritmo perto do galpão dos brinquedos, e alguns personagens novos que a produção claramente deixou pra sequência. Mas é honesto, é emocionalmente corajoso, e escolheu um tema que vai envelhecer muito melhor do que qualquer aventura espacial do Buzz.
Jessie finalmente chegou. E a Pixar ainda tem o que dizer.
☕☕☕☕ (4 de 5 xícaras)
Toy Story 5 está nos cinemas. Deixa o celular no bolso por duas horas — parece que isso é pedir demais em 2026, mas vale cada segundo.
