
A trama
Eu sabia que ia gostar de “Erin Brockovich” antes mesmo de apertar o play, só pelo cartaz: Julia Roberts de salto alto e cara de poucos amigos. O que eu não esperava é que esse filme de 2000, dirigido por Steven Soderbergh, ia me prender do jeito que prendeu — e olha que é baseado em fatos reais, daqueles casos que a gente lê o resumo e pensa “impossível ter acontecido assim”.
Erin é uma mãe solo, desempregada, sem grana, sem network, que entra para trabalhar num escritorinho de advocacia quase como favor. Lá, ela esbarra em uns documentos sobre uma cidadezinha chamada Hinkley, no meio do deserto da Califórnia, e puxa um fio que ninguém mais tinha puxado: a Pacific Gas and Electric estava envenenando a água da região havia anos — e sabia disso. O que começa como curiosidade vira o maior processo por contaminação direta da história dos EUA até aquele momento: 333 milhões de dólares. Sem trapaça de roteiro, sem viradas mirabolantes. Só uma mulher batendo de porta em porta.
Os personagens
Julia Roberts carrega o filme inteiro nas costas — e ganhou o Oscar por isso, com folga merecida. A Erin dela não é heroína de discurso bonito: é fumante, mal-educada quando precisa, cansada, orgulhosa, e funciona exatamente porque nunca finge ser o que não é. Ed Masry (Albert Finney) é o advogado morno que vira parceiro a contragosto — e o contraste entre o jeito dele, careta e institucional, e o jeito dela, cru e direto ao ponto, é onde o filme respira melhor. E tem o George, o vizinho motoqueiro vivido por Aaron Eckhart, que vira a rede de apoio que ela nunca teve — sem julgamento, sem cobrar nada em troca. Assisti com o Diego e a gente comentou a mesma coisa: ninguém ali é perfeito, e é exatamente por isso que dá pra confiar neles.
O visual como provocação
Tem uma coisa nesse filme que me grudou mais do que o processo bilionário: o tanto que insistem em julgar a Erin pela roupa. Saia curta, decote, salto — em praticamente toda cena alguém faz questão de deixar claro que ela “não tem cara de quem trabalha num escritório de advocacia”. E é exatamente esse “deboche” que abre as portas das casas em Hinkley. As famílias atingidas não confiavam em ternos engomados nem em advogados de fala bonita — confiavam nela, porque ela parecia gente como elas. O figurino, que o roteiro trata como motivo de chacota dentro da história, é na real a ferramenta que faz o trabalho acontecer. Acho isso uma das sacadas mais inteligentes (e sutis) do filme: a aparência que tentam usar pra diminuir alguém pode ser exatamente o que dá acesso a lugares que ninguém mais conseguiria entrar.
Teoria cafeinada
Minha teoria — bem pessoal — é que “Erin Brockovich” não é, no fundo, um filme sobre vencer uma empresa poderosa na justiça. É um filme sobre o que acontece quando alguém se recusa a se encaixar no molde que o sistema espera. Toda vez que a Erin tenta “se ajustar” — fala mais educada, postura mais profissional —, ela perde força. É só quando ela é genuinamente ela mesma, sem pedir desculpas por isso, que as portas abrem e o caso anda. Pra mim, o verdadeiro veredito do filme não está nos 333 milhões de dólares: está na cena em que ela recebe o cheque do bônus e simplesmente não aceita ser tratada como peça descartável depois de ter feito o trabalho pesado sozinha. Isso, sim, é a virada da história.
Conclusão — nota em xícaras
“Erin Brockovich” é daqueles filmes baseados em fatos reais que não precisam inflar nada pra serem grandes — a história já é gigante por conta própria, e o roteiro tem a inteligência de deixar a Julia Roberts simplesmente existir na tela. Saiu da sessão com vontade de pesquisar mais sobre o caso real (e descobri que a Erin de verdade aparece em uma ponta no filme — vale procurar). Nota: ☕☕☕☕½ (4,5 de 5 xícaras).
