Tempo de Leitura: 3 minutos

Prometi essa história faz só dois dias, lá na resenha do reboot de 2021: “Aniquilação existe, gente, e um dia eu conto essa história aqui.” Chegou o dia. Revi o filme inteiro pra escrever esse texto — dessa vez sem a nostalgia dos anos 90 pra amaciar o golpe — e confirmei o que eu já desconfiava fazia tempo: não é um filme ruim que a gente ama apesar de tudo. É um filme ruim que a gente perdoa só porque, nele, a franquia finalmente trouxe gente nova pra história.

A trama

Shao Kahn, imperador de Outworld, resolve trapacear: abre à força um portal entre os dois mundos, sem respeitar o regulamento de dez torneios que sustenta toda a lore de Mortal Kombat. Se a fenda continuar aberta por sete dias, os reinos se fundem e a Terra deixa de existir do jeito que a gente conhece. Sobra pra Liu Kang, Kitana, Sonya, Jax e reforços fecharem o portal em seis dias. No papel é ambicioso — é basicamente a fusão de Mortal Kombat II e Mortal Kombat 3 numa história só. Na tela, é a sensação exata de assistir dois roteiros brigando pelo mesmo espaço de 95 minutos.

Os personagens

Aqui mora o pecado mais feio do filme. Linden Ashby, o Johnny Cage original, recusou voltar porque ficou incomodado ao saber que o próprio personagem seria morto logo no começo da história. A produção escalou Chris Conrad pra herdar o papel — e matou esse Johnny Cage novo nos primeiros dez minutos de tela mesmo assim. Não existe decisão de roteiro mais cruel com quem cresceu vendo esse personagem: trocam o ator porque ele não quis morrer cedo, e matam o substituto do mesmo jeito, na mesma pressa.

Christopher Lambert (Raiden) e Bridgette Wilson (Sonya) também saíram, substituídos por James Remar e Sandra Hess, e dá pra sentir a química quebrada em quase toda cena de diálogo. Só Robin Shou (Liu Kang) e Talisa Soto (Kitana) seguram a ponte com o primeiro filme.

Mas é aqui que o filme se salva, e é o motivo real de valer a maratona: pela primeira vez a franquia bota na tela os personagens que definem o jogo de verdade. Brian Thompson estreia como Shao Kahn e rouba toda cena que pisa só de gritar as falas certas com convicção de quem sabe que é a estrela ali. Jax (Lynn “Red” Williams) aparece com os braços biônicos, Nightwolf (Litefoot) e Jade (Irina Pantaeva) chegam pela primeira vez em live-action, e Sheeva e Motaro ganham corpo mesmo com efeitos capengas. Curiosidade boa: Keith Cooke, que fez o Reptile no primeiro filme, virou o Sub-Zero (na cena do passado) nesse aqui — trocou de máscara e quase ninguém percebeu.

Bastidores de pressa e orçamento curto

Dá pra sentir o aperto em cada cena. O orçamento de US$ 30 milhões teve que dar conta de Outworld inteiro, mais criaturas como Motaro e Sheeva, dentro de um cronograma de produção apertado — o roteiro tentou encaixar elementos de Mortal Kombat II e 3 ao mesmo tempo, e o resultado é uma trama corrida, com gente entrando e saindo de cena sem tempo de respirar. A crítica não perdoou: 4% no Rotten Tomatoes, 11 em 100 no Metacritic. O New York Times chamou de “mortalmente monótono”. E os próprios criadores do jogo, Ed Boon e John Tobias, disseram em entrevistas de 2012 que foi a pior experiência que já tiveram em todos os anos de franquia — isso vindo de quem inventou esse universo.

Teoria cafeinada

Minha teoria aqui não é sobre o enredo — é sobre o que aconteceu depois que as câmeras desligaram. Antes de Aniquilação estrear, Robin Shou já tinha contrato assinado pra um terceiro filme; o plano de continuar a franquia no cinema já existia, pronto pra engatar. Só que a reação foi tão ruim, com queda de quase 60% na bilheteria de estreia em relação ao primeiro filme, que a New Line e a Threshold engavetaram o terceiro filme quase da noite pro dia. Anos depois, um projeto chamado Mortal Kombat: Devastation chegou a entrar e sair de desenvolvimento por mais de uma década, com plano de trazer o elenco original de volta e ignorar Aniquilação por completo, como se nunca tivesse acontecido. Não saiu do papel. Quem finalmente emplacou foi o reboot de 2021 — que também finge, bem discretamente, que esse filme aqui nunca existiu. Se até a própria Mortal Kombat tentou apagar o próprio filho, talvez o problema não seja só implicância minha.

Conclusão

É um filme ruim. Corrido, mal escrito, com decisões de elenco que doem em quem acompanha desde o primeiro round. Mas eu ri assistindo, porque as falas do Shao Kahn são boas de um jeito errado, e porque, pela primeira vez, a gente viu esses personagens ganhando corpo antes dos próprios jogos alcançarem esse nível gráfico. Não recomendo pra quem quer conhecer a franquia pela primeira vez — comece pelo reboot de 2021 ou direto pela sequência dele. Recomendo pra quem, como eu, já ama Mortal Kombat mesmo assim.

Nota: ☕☕ de 5

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *