
Nem todo anúncio de jogo esconde uma reviravolta de 30 anos. Esse esconde — e a Letícia aqui não resistiu.
A história que você não sabia
Em junho de 1996, a Tecmo colocou nos fliperamas japoneses um jogo de luta diferente de tudo que existia até ali: Touki Denshou: Angel Eyes. Elenco 100% feminino — biker, jogadora de vôlei, colegial de uniforme, ninja, e uma que enfrenta o adversário literalmente armada com um ursinho de pelúcia. Oito “Anjos” brigando pra virar “Arcanjo”.
Tecnicamente, o jogo era mais estranho e mais corajoso do que qualquer coisa que a concorrência estava fazendo: metade das lutadoras usava sprites desenhados à mão, quadro a quadro; a outra metade rodava em modelos 3D pré-renderizados, no mesmo jogo, na mesma tela. Nenhum outro jogo de luta comercial, antes ou depois, misturou as duas técnicas assim.
E, ainda assim, ninguém notou.
O contexto por trás
A produção de Angel Eyes foi um parto: equipe trocada no meio do desenvolvimento, prazo curto, recursos curtos. Enquanto o jogo tentava sobreviver ao próprio processo de criação, parte do time foi puxada pra outro projeto dentro da Tecmo — um jogo de luta que usaria o hardware Sega Model 2 e chegaria aos fliperamas poucos meses depois do lançamento de Angel Eyes. Esse outro projeto era Dead or Alive.
DOA virou franquia global: sequências, torneio, anime, filme, um dos jogos de luta mais lembrados (e mais debatidos) da história. Angel Eyes ganhou um port de PlayStation em dezembro de 1997, com personagens extras escondidos pra compensar quem já tinha visto tudo no fliperama — e trancou a porta atrás de si. Nunca saiu do Japão. Por 30 anos.
Por que isso muda tudo (ou não muda nada)
Não muda o resultado: Dead or Alive já ganhou esse jogo há muito tempo. Mas muda o acesso. Em 13 de agosto de 2026, a Hamster liberou o port de PlayStation de Angel Eyes pro Ocidente pela primeira vez na história, dentro da linha Console Archives, pra PS5 e Nintendo Switch 2, por US$ 11,99. A ROM é a japonesa original — sem tradução oficial, sem dublagem nova, exatamente como sempre existiu.
Pra quem gosta de rastrear a árvore genealógica dos jogos que ama, é a chance de jogar o “irmão perdido” de Dead or Alive pela primeira vez fora do Japão.
Curiosidade bônus
Angel Eyes está entre os primeiros jogos de luta da história com elenco inteiramente feminino, numa época em que mulher em jogo de luta era, no máximo, uma personagem na escalação de homens. A ironia é dupla: a pioneira ficou invisível justamente pro jogo que, anos depois, viraria alvo de debate por como retrata suas próprias lutadoras.
Conclusão cafeinada
Toda editora tem um Angel Eyes escondido no armário: o projeto sacrificado pra outro dar certo. A diferença é que, dessa vez, 30 anos depois, alguém abriu a porta e deixou a gente conhecer o que ficou pra trás. Vale a curiosidade — e o pedaço de história de videogame que quase ninguém contou. ☕
