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Todo mundo fala de Soul Man como se fosse só mais um filme constrangedor dos anos 80. Eu assisti esperando exatamente isso. Não foi o que encontrei.

É um filme incômodo, sim. Mas é incômodo do jeito certo.

A trama

Mark Watson (C. Thomas Howell) tem tudo planejado: Harvard Law, futuro garantido, vida perfeita. Até que o pai corta o financiamento do dia pra noite — por conselho do próprio psiquiatra, que o convenceu a “focar na própria felicidade”. Típico.

Sem dinheiro, Mark descobre uma bolsa integral destinada a estudantes negros. A solução que ele encontra diz tudo sobre quem ele é no começo da história: toma pílulas de bronzeamento, coloca uma peruca e se passa por negro. Frauda o sistema. E acha que vai ficar por isso mesmo.

Não vai.

Os personagens

C. Thomas Howell carrega um arco de consciência que o roteiro leva a sério. Mark começa o filme como um cara bem-intencionado e completamente alheio — aquele tipo que acha que não é racista porque não odeia ninguém. O tipo mais perigoso, justamente porque não se enxerga.

O que acontece ao longo do filme é que ele vai percebendo, na prática, o que significa ser negro na América dos anos 80. Não de forma abstrata. Nos pequenos insultos cotidianos. Nas piadas que ele inicialmente deixa passar — porque “é só uma brincadeira” — e que com o tempo começam a revelar o ódio que existe nas entrelinhas.

Rae Dawn Chong como Lisa é o peso moral da história. Quando descobrimos que ela seria a beneficiária original da bolsa que Mark roubou, o filme não suaviza isso. É uma escolha honesta.

James Earl Jones como professor eleva qualquer cena. É a presença mais legítima do elenco — e não por acaso, a mais séria.

A cena que muda tudo

Tem um momento no filme que ficou comigo. Quando Mark é descoberto, um dos professores — ou o reitor, a memória me prega peças — diz algo no sentido de: “Agora você sabe como é ser negro.”

E Mark responde: “Não, senhor. Eu não faço a menor ideia.”

Essa linha é o filme inteiro. É o momento em que o roteiro assume que a premissa toda — um branco “experimentando” ser negro — é fundamentalmente insuficiente. Mark passou meses sofrendo preconceito, sendo tratado diferente, aprendendo a enxergar o que antes era invisível pra ele. E ainda assim tem a humildade (ou a lucidez) de reconhecer que não entende nada.

Não é redenção barata. É consciência real.

Teoria cafeinada

Minha leitura é que Soul Man usa o blackface como armadilha narrativa — e faz isso de propósito. A desconforto que sentimos ao assistir é o mesmo que devemos sentir com a fraude do personagem. O filme não quer que a gente fique confortável. Quer que a gente perceba o absurdo do privilégio que permite a Mark sequer cogitar essa solução.

E tem um detalhe que sustenta essa leitura: Mark começa o filme tolerando piadas racistas. Deixa passar. Ri junto. É só depois, quando o ódio nas entrelinhas fica nítido demais pra ignorar, que ele para. Esse arco é intencional. O roteiro sabe o que está fazendo.

Spike Lee odiou o filme. É compreensível — e o olhar crítico dele tem peso. Mas acho que Soul Man é mais inteligente do que a reputação dele deixa parecer.

Conclusão — nota em xícaras ☕

É um filme que exige que você chegue com disposição pra desconforto. Não é leve. Não é simples. E a premissa continua sendo difícil de defender no papel.

Mas quando você chega na linha “Não, senhor. Eu não faço a menor ideia” — e tudo que levou até ali — você entende que o filme sabia o que estava fazendo desde o começo.

Nota: ☕☕☕☕ — 4 xícaras de 5. Injustiçado pela reputação.

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